Em outubro de 1999 um importante encontro, promovido em Paris pelos Médicos Sem Fronteira (MSF), Organização Mundial da Saúde (OMS) e Fundação Rockefeller, chamou a atenção para um grupo de doenças contra as quais não existiam medicamentos eficazes por serem prevalentes principalmente entre populações pobres ou marginalizadas e portanto fora das prioridades da indústria farmacêutica. Em 2001 relatórios dos MSF e da OMS caracterizaram as doenças, respectivamente, como "globais" ou tipo I; "negligenciadas" ou tipo II; e "mais negligenciadas" ou tipo III e enfatizaram a necessidade de ações e mecanismos inovadores para estimular o desenvolvimento de novos medicamentos e intervenções específicos contra estas enfermidades negligenciadas [1,2].
Na realidade o conceito inicial de doenças "negligenciadas" deve-se a Kenneth Warren, então Diretor de Programas da Fundação Rockefeller, que criou o Programa The Great Neglected Diseases of Mankind. Na visão dele, as doenças eram negligenciadas pelas agências de fomento à pesquisa, que concentravam seu apoio em doenças como câncer, negligenciando doenças como malária, esquistossomose [3]
Vários mecanismos e iniciativas têm sido propostos, experimentados ou implementados para combater este problema nas últimas décadas: desde ações do tipo "push" (mais investimentos em P&D através, por exemplo, de Parcerias Público Privadas / Parcerias para o Desenvolvimento de Produtos, PPPs / PDPs) a mecanismos "pull" (ex: fundos globais para aquisição de insumos) [4].
O conceito de "doenças negligenciadas" evoluiu desde a visão inicial de Ken Warren, passando pelas definições dos MSF e da OMS, para uma visão mais atual em que estas doenças são encaradas como promotoras ou perpetuadoras da pobreza[5].
Em 2006 Mahoney e Morel propuseram que três "falhas" seriam responsáveis por este quadro de carência de intervenções eficazes contra essas doenças[6]:
- Falhas de ciência, responsáveis por hiatos de conhecimento necessários a inovação em saúde;
- Falhas de mercado, onde carência de recursos impede acesso a intervenções existentes;
- Falhas de sistemas de saúde, por não observância de 'boas práticas' necessárias ao bom funcionamento dos sistemas e serviços de saúde.
Para combatê-las ressaltaram a necessidade de diferentes tipos de inovações - tanto tecnológicas como sociais - assim como da participação cooperativa de diferentes atores (organizações nacionais e internacionais; países industrializados, países em desenvolvimento inovadores (IDCs) e também dos países mais pobres e afetados pelas doenças). Em outras palavras, propuseram as bases de um verdadeiro "Sistema Global de Inovação em Saúde" (SGIS; GHIS em inglês) [5], capaz de enfrentar estes desafios segundo um novo quadro conceitual estruturado ao longo de três eixos: diagnóstico (falhas); terapêutica (inovações); identificação de responsabilidades (atores/agentes - países, organizações).
Dentre os principais componentes necessários ao bom funcionamento de qualquer sistema de inovação - empresas; governo & setor público; redes; financiamento - Morel e colaboradores destacam o papel das redes colaborativas no combate às doenças negligenciadas que afetam as populações pobres e marginalizadas, em particular nos países em desenvolvimento [7,8]. Mostraram ainda que a análise de redes de co-autorias e redes de patentes pode ser uma poderosa ferramenta auxiliar no planejamento estratégico e na gestão de programas de financiamento de P&D e de fortalecimento institucional nestas doenças [9,10].
Finalizamos nosso curso chamando a atenção para temas atuais de pesquisa, desenvolvimento e inovação em saúde, como por exemplo:
- Análise de redes de publicações e patentes no planejamento estratégico de P&D e de Sistemas Nacionais de Inovação em saúde [9-10];
- Evolução e estágio atual dos IDCs (Innovative Developing Countries, Países em Desenvolvimento Inovadores) desde a proposição e análise inicial deste grupo de países em 2005 [7];
- Ações recentes em saúde global na Organização Mundial da Saúde, como a proposta de uma Convenção em P&D em Saúde e seus desdobramentos [11];
- Conceituação, estruturação e evolução do CEIS - Complexo Econômico-Industrial em Saúde [12-14];
- Relações entre saúde, cidadania e desenvolvimento [15,16];
- Relatório da Comissão Lancet [17] e, em particular, o artigo Global health 2035: a world converging within a generation [18].
Referencias citadas
- Médecins Sans Frontières Access to Essential Medicines Campaign and the Drugs for Neglected Diseases Working Group (2001) Fatal Imbalance: The Crisis in Research and Development for Drugs for Neglected Diseases. Edited by Berman D, Moon S. Brussels: MSF Access to Essential Medicines Campaign
- WHO Commission on Macroeconomics and Health (2001) Macroeconomics and Health: Investing in Health for Economic Development. Report of the Commission on Macroeconomics and Health. Geneva: World Health Organization
- Warren KS (1986) Orphan diseases and orphan drugs, volume 3 of Fulbright Papers, chapter The great neglected diseases of mankind, or All the world’s an orphanage, pages 169–176. Manchester University Press in association with The Fulbright Commission, 1986.
- Hecht R, Wilson P, Palriwala A (2009) Improving Health R&D Financing For Developing Countries: A Menu Of Innovative Policy Options. Health Affairs 28:974-985
- Morel CM (2011) Promotoras da pobreza. Valor Econômico, 01/fevereiro/2011 http://www.dndi.org.br/images/stories/pdf/promotoras_da_pobreza_valor.pdf
- Mahoney RT, Morel CM (2006) A Global Health Innovation System (GHIS).Innovation Strategy Today 2:1-12. Artigo reproduzido, a convite, em: Global Forum Update on Research for Health. Vol. 3: Combating disease and promoting health. Pro-Brook Publishing, 2006, 3:149-15
- Morel CM, Acharya T, Broun D, Dang AJ, Elias C, Ganguly NK, Gardner CA, Gupta RK, Haycock J, Heher AD, Hotez PJ, Kettler HE, Keusch GT, Krattiger AF, Kreutz FT, Lall S, Lee K, Mahoney R, Martinez-Palomo A, Mashelkar RA, Matlin SA, Mzimba M, Oehler J, Ridley RG, Pramilla S, Singer P, Yun MY (2005) Health innovation networks to help developing countries address neglected diseases.Science 309:401-404
- Morel CM, Carvalheiro JR, Romero CNP, Costa EA, Buss PM (2007) The road to recovery. Nature 449:180-182
- Morel CM, Serruya SJ, Penna GO, Guimarães R (2009) Co-authorship Network Analysis: A Powerful Tool for Strategic Planning of Research, Development and Capacity Building Programs on Neglected Diseases. PLoS Neglected Tropical Diseases 3:e501
- Vasconcellos AG, Morel CM (2012) Enabling policy planning and innovation management through patent information and co-authorship network analyses: A study of tuberculosis in Brazil. PLoS ONE, 7(10):e45569 http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0045569
- http://www.who.int/phi/news/cewg_2011/en/
- Gadelha CAG (2006) Development, health-industrial complex and industrial policy. Revista de Saúde Pública, 40 (Special issue):11–23, 2006.
- Gadelha CAG, Costa LS, Maldonado J (2012) O complexo econômico-industrial da saúde e a dimensão social e econômica do desenvolvimento. Revista de Saúde Pública, 46:21–28
- Gadelha CAG (2012) Saúde e Desenvolvimento. Valor Econômico, Caderno EU & Fim de semana, 21.09.2012
- Cohn A (2013) Saúde, cidadania e desenvolvimento, volume 1 da série Pensamento Crítico. Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, Rio de Janeiro, 1ª edição, 2013. http://www.e-papers.com.br/pensamentocritico/produtos.asp?codigo_produto=2406&promo=0
- Morel CM (2013) Doenças negligenciadas, novo perfil epidemiológico e desenvolvimento no Brasil. In: Saúde, cidadania e desenvolvmento. Rio de Janeiro: Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento; p. 9–20
- Horton R.; Lo S (2013) Investing in health: why, what, and three reflections. The Lancet 382:1859–1861
- Jamison DT, Summers LH, Alleyne G, Arrow KJ, Berkley S, Binagwaho A, et al (2015) Global health 2035: a world converging within a generation. The Lancet 382:1898–1955. http://linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S0140673613621054
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